Trigo geneticamente modificado é o trigo que passou por alterações em seu material genético por meio de técnicas da engenharia genética, conferindo características desejáveis, como tolerância à seca e resistência a herbicidas, podendo resultar em um trigo transgênico. O trigo geneticamente modificado HB4, desenvolvido para tolerar a seca e resistir ao herbicida glufosinato, recebeu aprovação inicial na Argentina em 2020 e, em 2023, foi autorizado para cultivo no Brasil e no Paraguai.

Contexto O trigo é um híbrido natural derivado do cruzamento entre espécies. Acredita-se que os ancestrais do trigo (Triticum monococcum, Aegilops speltoides e Aegilops tauschii, todas gramíneas diplóides) se hibridizaram naturalmente ao longo de milênios em algum lugar da Ásia Ocidental, criando híbridos poliploides naturais, dos quais os mais conhecidos são o trigo comum e o trigo duro. O trigo (Triticum spp.) é uma importante gramínea domesticada utilizada mundialmente como alimento. Sua evolução tem sido influenciada pela intervenção humana desde os primórdios da agricultura. A transferência interespecífica de genes continuou a ocorrer nos campos dos agricultores durante a mudança da dieta paleolítica para a dieta adotada pelos humanos após a Revolução Neolítica, ou primeira revolução verde. Durante a transição de uma estrutura social de caçadores-coletores para sociedades mais agrárias, os humanos começaram a cultivar trigo e a transformá-lo ainda mais para atender às suas necessidades. Assim, as raízes sociais e culturais dos humanos e o desenvolvimento do trigo estão interligados desde antes da história registrada. Este processo resultou em várias espécies de trigo que são cultivadas para propósitos e climas específicos. Em 1873, Wilson polinizou o centeio e o trigo para criar o triticale. Outras transformações usando técnicas de hibridização citogênica permitiram que Norman Borlaug, pai da segunda Revolução Verde, desenvolvesse variedades de trigo que cresceriam em ambientes hostis. As técnicas de DNA recombinante foram desenvolvidas na década de 1980, e o trabalho começou na criação do primeiro trigo transgênico, coincidindo com a terceira Revolução Verde. Dos três cereais mais importantes do mundo (milho, arroz e trigo), o trigo foi o último a ser transformado por métodos transgênicos, como biolística em 1992 e por métodos de Agrobacterium em 1997. Seu uso generalizado na dieta humana enfrentou resistência cultural.

Ensaios de campo e aprovações Em 2013, 34 ensaios de campo de trigo geneticamente modificado ocorreram na Europa e 419 nos EUA. Modificações testadas incluem aquelas para criar resistência a herbicidas, criar resistência a insetos e a patógenos fúngicos (especialmente fusarium) e vírus, tolerância à seca e resistência à salinidade e ao calor, aumento e diminuição do conteúdo de glutenina, redução do conteúdo da proteína imunogênica gliadina, nutrição melhorada (maior conteúdo de proteína, maior estabilidade ao calor da enzima fitase, maior conteúdo de fibras alimentares hidrossolúveis, maior conteúdo de lisina), qualidades melhoradas para uso como matéria-prima de biocombustíveis, produção de medicamentos via pharming e aumento de rendimento. A empresa argentina Bioceres desenvolveu uma planta com o gene HaHB4 e ela foi cultivada em uma ampla gama de condições de cultivo que mostraram melhor adaptação a ambientes propensos à seca, a restrição mais importante que afeta a produtividade das culturas em todo o mundo.

HB4 da Bioceres

A empresa argentina Bioceres desenvolveu uma variedade de trigo geneticamente modificada com maior rendimento sob estresse hídrico. A variedade, também conhecida como IND-ØØ412-7, recebeu esse nome devido à expressão de um fator de transcrição de girassóis, conhecido como HaHB4, que regula a expressão de vários genes associados à resposta à seca, ajudando a planta a tolerar estresse hídrico. O HB4 também apresenta resistência ao herbicida glufosinato, obtida por meio da inserção do gene bar, originário da bactéria Streptomyces hygroscopicus. O evento recebeu aprovação inicial na Argentina em 2020 e, em 2023, foi autorizado para cultivo no Brasil e no Paraguai.

MON 71800 da Monsanto O trigo transgênico mais desenvolvido foi o MON 71800 da Monsanto, que é resistente ao glifosato (Roundup Ready) por meio do gene cp4-epsps, que expressa uma versão da enzima 5-enolpiruvilshiquimato-3-fosfato sintase (EPSPS), associada a síntese dos aminoácidos essenciais fenilalanina, tirosina e triptofano, da cepa CP4 da bactéria Agrobacterium tumefaciens que não é inibida pelo glifosato. A Monsanto recebeu aprovação da Food and Drug Administration (FDA) norte-americana para uso do evento para alimentação, mas retirou seu pedido à Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) em 2004, de modo que o produto nunca foi comercializado. A variedade recebeu aprovação para uso como alimento na Colômbia. Estudos conduzidos pela Monsanto mostraram que seus componentes nutricionais são equivalentes aos do trigo não transgênico disponível comercialmente, e estudos em animais que utilizaram o MON 71800 para ração confirmaram isso. Avaliações de risco ambiental foram conduzidas pela Monsanto, e agências reguladoras governamentais aprovaram seu uso em alimentos. No entanto, os agricultores estavam preocupados com a potencial perda de mercados na Europa e na Ásia devido à recusa pública do produto final, por isso a Monsanto retirou o seu pedido à EPA para o trigo Roundup Ready. Em 2010, o parceiro da Monsanto na Índia, a Mahyco, anunciou que planeava obter aprovação para comercializar trigo geneticamente modificado na Índia nos próximos três a cinco anos.

Controvérsia

Existe um consenso científico de que os alimentos atualmente disponíveis derivados de culturas geneticamente modificadas não representam um risco maior para a saúde humana do que os alimentos convencionais, mas que cada alimento geneticamente modificado precisa ser testado caso a caso antes da introdução. No entanto, os membros do público são muito menos propensos do que os cientistas a perceber os alimentos geneticamente modificados como seguros. O status legal e regulatório dos alimentos geneticamente modificados varia de país para país, com algumas nações proibindo-os ou restringindo-os, e outras permitindo-os com graus de regulamentação amplamente diferentes, que variam devido a fatores geográficos, religiosos, sociais e outros. Embora tenham sido levantadas dúvidas, a maioria dos estudos constatou que o cultivo de culturas transgênicas tem sido benéfico para os agricultores, tanto pela redução do uso de pesticidas quanto pelo aumento do rendimento das colheitas e do lucro agrícola. Os ganhos de rendimento e lucro são maiores nos países em desenvolvimento do que nos países desenvolvidos. Os críticos se opõem às culturas geneticamente modificadas por vários motivos, incluindo preocupações ecológicas e preocupações econômicas levantadas pelo fato de que esses organismos estão sujeitos à lei de propriedade intelectual. As culturas geneticamente modificadas também estão envolvidas em controvérsias sobre alimentos geneticamente modificados com relação a se os alimentos produzidos a partir de culturas geneticamente modificadas são seguros e se as culturas geneticamente modificadas são necessárias para atender às necessidades alimentares do mundo. Essas controvérsias levaram a ações, disputas comerciais internacionais e protestos, e a legislação restritiva em vários países.

Escape de sementes de trigo geneticamente modificado Em 1999, cientistas na Tailândia alegaram ter descoberto trigo resistente ao glifosato em um carregamento de grãos proveniente do noroeste do Pacífico dos Estados Unidos, embora o trigo transgênico nunca tivesse sido aprovado para venda e fosse cultivado apenas em parcelas de teste. Ninguém conseguiu explicar como o trigo transgênico chegou ao suprimento alimentar.

Em maio de 2013, uma cepa de trigo geneticamente modificado e resistente ao glifosato foi encontrada em uma fazenda no Óregon. Testes extensivos confirmaram o trigo como uma variedade – MON71800. O trigo foi desenvolvido pela Monsanto, mas nunca foi aprovado ou comercializado depois que a empresa o testou entre 1998 e 2005. A presença inexplicável desse tipo de trigo representa um problema para os produtores de trigo quando os compradores exigem trigo livre de transgênicos. O Japão posteriormente suspendeu a importação de trigo branco mole dos Estados Unidos. Um fazendeiro do Kansas processou a Monsanto sobre a contaminação, dizendo que isso causou a queda do preço do trigo cultivado nos EUA. A Monsanto sugeriu que a presença desse trigo provavelmente era um ato de sabotagem. Em 14 de junho de 2013, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) anunciou: "Até hoje, o USDA não encontrou nem foi informado de nada que indicasse que este incidente equivale a mais do que um único incidente isolado em um único campo em uma única fazenda. Todas as informações coletadas até agora não mostram nenhuma indicação da presença de trigo geneticamente modificado no comércio."Em 30 de agosto de 2013, embora a fonte do trigo geneticamente modificado permanecesse desconhecida, o Japão, a Coreia do Sul e Taiwan retomaram as encomendas e a perturbação do mercado de exportação foi mínima. A investigação foi encerrada em 2014 depois que o Serviço de Inspeção de Saúde Animal e Vegetal do USDA esgotou todas as pistas, mas não encontrou nenhuma evidência de que o trigo tivesse entrado em fornecimento comercial. Em 2019, o USDA anunciou que plantas de trigo geneticamente modificadas, projetadas para resistir ao glifosato, foram detectadas em um campo cão cultivado no estado de Washington.

Referências